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TRUMP ASSINA ORDEM EXECUTIVA PARA ACELERAR PESQUISA E REGULAMENTAÇÃO DE PSICODÉLICOS


No dia 19 de abril de 1943, Albert Hofmann, que viria a ser conhecido como “o pai do LSD”, realizou um experimento intencional com 0,25mg da substância que vinha pesquisando em laboratório nos anos anteriores. Esse dia ficaria conhecido, e celebrado, em todo mundo como o Dia da Bicicleta, marcando o dia em que os efeitos psicoativos e psicodélicos no LSD foram atestados pelo seu criador. Oitenta e três anos depois deste dia, às vésperas de mais um Dia da Bicicleta, em 18 de abril de 2026, Donald Trump, atual presidente dos EUA, assina uma ordem que acelera a pesquisa psicodélica.


A medida busca acelerar tanto a produção de evidências clínicas quanto o acesso terapêutico a substâncias como psilocibina, MDMA, LSD e ibogaína. Um dos eixos centrais da ordem é a redução das barreiras regulatórias que historicamente dificultam a pesquisa com psicodélicos. A proposta envolve simplificar processos burocráticos, especialmente aqueles relacionados ao registro e condução de estudos com substâncias classificadas na Tabela I de substâncias controladas nos EUA (aquelas entendidas com alto potencial de dependência, e baixo potencial terapêutico, em sua maioria com status de ilegalidade). Na prática, isso inclui acelerar revisões de compostos já considerados “breakthrough therapies” e facilitar a reabertura de novos ensaios clínicos.


Outro ponto chave é o financiamento. A ordem prevê a mobilização de US$ 50  milhões em recursos federais para incentivar os estados a investirem em programas próprios de pesquisa psicodélica. Esse modelo pode catalisar iniciativas regionais já em andamento, como o caso do programa de pesquisa em ibogaína do Texas.


Ao ler que a ibogaína promove de 80% a 90% de redução em sintomas de depressão e ansiedade, Trump brincou: “Posso tomar um pouco? Eu quero! Eu tomarei o que for necessário!”, arrancando risadas dos espectadores no local. Seu comentário na sequência revela de forma irônica o desconhecimento do presidente estadunidense sobre intervenções em saúde mental (e talvez também sobre como os psicodélicos funcionam): “Eu não tenho tempo para ficar deprimido. Se você se ocupar bastante, talvez isso funcione também. É o que eu faço.”.  Depressão e ansiedade remediados com mais trabalho, e suplementados por psicodélicos: será que a canetada de Trump marca o fim do sonho contracultural psicodélico?


No anúncio da medida, Trump lia o documento, sentado na mesa principal do Salão Oval da Casa Branca, enquanto, em pé, atrás dele, se destacavam no centro o Secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., o CEO da “Americans for Ibogaine” W. Bryan Hubbard, e o podcaster, comediante e comentarista de MMA Joe Rogan. Um retrato nítido dos pilares liberais e conservadores da nova psicodelia trumpista.


Joe Rogan ficou conhecido por ser comentarista do UFC e por se tornar um dos primeiros podcasters de sucesso da história: seu programa serviu de modelo para muitos outros que vieram a testar esse formato de conteúdo na internet, e cada episódio do seu programa hoje tem uma média de 2 milhões de espectadores. No anúncio da medida, Rogan pediu a fala para contar “como tudo aconteceu”: ele disse que mandou uma mensagem para Trump, falando sobre os números de dependentes em opióides e de overdoses nos EUA, e sobre os resultados das pesquisa com ibogaína. Segundo ele, o presidente respondeu a mensagem dizendo “Parece ótimo! Você quer aprovação do FDA? Vamos fazer isso”. Azar da MAPS / Lykos Therapeutics, que investiu centenas de milhões de dólares em pesquisa com MDMA e teve seu pedido de regulamentação negado pelo FDA em 2024; mal sabiam que bastava pedir para Rogan mandar uma mensagem pro Presidente.


Rogan é conhecido por ser um grande entusiasta e disseminador de conteúdos sobre psicodélicos: sempre relatou suas experiências pessoais com maconha, cogumelos e DMT, defendendo a regulamentação dos psicodélicos, fazendo uma defesa antiproibicionista - os leitores mais interessados no campo talvez lembrem dele como apresentador do famoso documentário de 2010 “DMT: a molécula do espírito”. Ele mostra ser tão bem inserido no campo psicodélico quanto no mundo das artes marciais: no seu podcast, entrevistou de campeões e treinadores do UFC, à grandes personalidades psicodélicas como Rick Doblin, Paul Stamets, Michael Pollan, Dennis McKenna, Carl Hart, Hamilton Morris, Rick Strassman, entre outros. Desde a pandemia de COVID-19 (quando seu podcast era o mais escutado em todo Spotify), porém, o apresentador começou a fazer declarações negacionistas das medidas restritivas, anti-vacinas, e também passou a declarar apoio a Donald Trump. Para ajudar a pensar um paralelo da realidade política dos EUA e Brasil, vale lembrar que o The New York Times, apelidou Bruno Aiub (ex- apresentador do Flow Podcast, mais conhecido pela alcunha de Monark) de “Joe Rogan brasileiro”, depois de defender a existência de um partido nazista reconhecido por lei no Brasil.


A atuação de Robert F. Kennedy Jr. e de Elon Musk já anunciavam uma aproximação do governo Trump com os psicodélicos, mas revela também que grupos políticos conservadores e de direita vêm ganhando espaço no atual Renascimento Psicodélico. Enquanto na década de 1960 os psicodélicos eram usados por grupos contraculturais que defendiam a luta antirracista, a liberdade sexual e o fim das guerras, em 2026 vemos o mesmo presidente que ameaçou por fim à uma civilização inteira, que vem sendo acusado de crimes de guerra e de envolvimento com crimes de pedofilia e exploração sexual (e que até já foi condenado por abuso sexual e difamação), sendo aplaudido por financiar a pesquisa psicodélica que tratará dos ex-combatentes traumatizados pelas guerras. Como bem lembrou o psicólogo Bruno Ramos Gomes, durante a conferência Psychedelic Culture do Instituto Chacruna, a forma dos EUA olhar para a ibogaína parece um tipo de “recolonização”, que usa uma substância vinda de uma planta tradicional africana (a ibogaína é retirada da planta iboga, usada em rituais da cultura bwiti), para tratar seus traumas de seus veteranos de guerra, mas sem considerar as outras vítimas de guerras nos países invadidos. A proposta de “trauma zero” pensada pela MAPS parece ainda mais distante: pelo visto é mais fácil repensar a política antiproibicionista que já vigora nos EUA a 56 anos, do que desfazer políticas de guerra. A ibogaína pode ajudar no tratamento dos traumas de guerra, mas ainda está longe de ser um remédio para a guerra e o trauma no mundo.


O vínculo entre humanos e psicodélicos ao longo da história já garantiu títulos como do “pai do LSD” para Hofmann, ou “padrinho do LSD” para Grof, pela relevância de seus trabalhos na história psicodélica. Cabe perguntar se o atual movimento psicodélico nos EUA tenta reescrever a história dos homens ali em destaque, buscando um apelido de “padrinhos da ibogaína”, para na verdade tentar apagar títulos como “nome mais citado nos arquivos de Epstein”, e “antivax e negacionista da COVID”.


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