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PSILOCIBINA ALÉM DA MENTE: ESTUDO MOSTRA BENEFÍCIOS METABÓLICOS DE BAIXAS DOSES EM MODELO ANIMAL

Quando se fala em psicodélicos, a atenção costuma se voltar quase exclusivamente para seus efeitos sobre a consciência, a percepção e a saúde mental. No entanto, uma nova pesquisa publicada na revista Pharmacological Research amplia esse horizonte ao demonstrar que a psilocibina também pode exercer efeitos importantes sobre processos fisiológicos periféricos, incluindo metabolismo, inflamação e função hepática.

No estudo, pesquisadores investigaram os efeitos da administração crônica de baixas doses de psilocibina (0,05mg/kg) em camundongos submetidos a uma dieta rica em gordura e frutose, modelo experimental utilizado para reproduzir obesidade, diabetes tipo 2 e esteatose hepática metabólica. Após 12 semanas de tratamento, os animais apresentaram redução do ganho de peso, melhora da resistência à insulina, diminuição da gordura acumulada no fígado e normalização de diversos marcadores metabólicos associados ao metabolismo de lipídios e carboidratos. Além disso, os pesquisadores observaram melhora da força muscular e indícios de restauração da sensibilidade à leptina, hormônio fundamental para a regulação do apetite e do gasto energético.

Diferentemente do que se poderia esperar, os efeitos observados não parecem depender do receptor 5-HT2A, principal alvo responsável pelas experiências psicodélicas clássicas. Os resultados apontam para a participação do receptor serotoninérgico 5-HT2B presente no fígado, sugerindo que a psilocibina pode atuar diretamente sobre tecidos periféricos, produzindo benefícios metabólicos independentemente de seus efeitos sobre a consciência.

Esses achados se somam a uma crescente literatura que vem questionando a ideia de que os psicodélicos atuam apenas no cérebro. Nos últimos anos, pesquisadores têm mostrado que receptores serotoninérgicos relevantes para a ação dessas substâncias estão distribuídos por todo o organismo, incluindo sistema imunológico, trato gastrointestinal, fígado, tecido adiposo e sistema cardiovascular. Isso abre espaço para uma compreensão mais ampla dos psicodélicos como moduladores sistêmicos da fisiologia humana.

Nesse contexto, vale lembrar o trabalho conduzido pela pesquisadora brasileira Nicole Galvão-Coelho e colaboradores do Instituto do Cérebro, na UFRN, que investigou os efeitos da ayahuasca em pacientes com depressão resistente ao tratamento. O estudo encontrou uma redução significativa dos níveis de proteína C-reativa (PCR), um importante marcador inflamatório, após a administração da bebida. Mais do que isso, os participantes que apresentaram maior redução da inflamação também exibiram maior melhora dos sintomas depressivos, sugerindo uma possível ligação entre os efeitos antidepressivos da ayahuasca e sua ação sobre processos inflamatórios.

Embora ainda seja cedo para estabelecer relações causais definitivas, pesquisas como essas apontam para uma mudança importante de paradigma. Em vez de compreender os psicodélicos apenas como substâncias capazes de alterar estados mentais, cresce a hipótese de que parte de seus benefícios terapêuticos possa envolver mecanismos corporais mais amplos, incluindo regulação metabólica, modulação imunológica e redução da inflamação sistêmica.

A nova pesquisa com psilocibina não demonstra apenas um potencial tratamento para obesidade, diabetes e doença hepática gordurosa. Ela também reforça uma ideia cada vez mais presente na ciência psicodélica contemporânea: mente e corpo talvez não sejam domínios tão separados quanto tradicionalmente imaginamos, e os mecanismos responsáveis pelos efeitos terapêuticos dessas substâncias podem atravessar simultaneamente ambos os níveis.



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