top of page

NÍVEIS DE ESTROGÊNIO MODULAM A EXPERIÊNCIA COM PSILOCIBINA?


Uma nova pesquisa publicada na revista Neuropharmacology lança luz sobre um tema ainda pouco explorado nas ciências psicodélicas: o papel dos hormônios sexuais na resposta à psilocibina. O estudo, conduzido por pesquisadores da Miami University, investigou como idade e níveis de estrogênio influenciam os efeitos da substância em ratos, e os resultados sugerem que a sensibilidade aos psicodélicos pode variar significativamente conforme o ciclo hormonal feminino.

Os pesquisadores administraram psilocibina em ratos adolescentes e adultos, observando principalmente o chamado head twitch response (um movimento rápido da cabeça considerado marcador comportamental clássico da ativação serotoninérgica causada por psicodélicos). Enquanto os ratos adultos apresentaram forte resposta ao composto, os adolescentes praticamente não reagiram. Isso indica que o cérebro em desenvolvimento pode responder de forma muito diferente à psilocibina, possivelmente por diferenças na maturação dos sistemas serotoninérgicos.

Mas o dado mais interessante surgiu quando os cientistas analisaram as diferenças entre machos e fêmeas adultas. As ratas apresentaram respostas mais intensas à psilocibina do que os machos; esta sensibilidade variava, porém de acordo com a fase do ciclo estral, equivalente ao ciclo menstrual humano. Durante a fase de baixos níveis de estrogênio, chamada diestro, os animais exibiram muito mais respostas comportamentais à droga. Já nos períodos de estrogênio elevado, os efeitos foram significativamente reduzidos.

A hipótese dos autores é que o estrogênio altera o funcionamento dos receptores serotoninérgicos 5-HT2A, principais alvos da psilocibina no cérebro. O hormônio poderia modificar tanto a disponibilidade desses receptores na superfície das células quanto a intensidade da sinalização desencadeada após sua ativação. Em outras palavras, a mesma dose de psilocibina poderia produzir efeitos distintos dependendo do estado hormonal do organismo.

Embora ainda seja um estudo em animais, os resultados dialogam diretamente com uma discussão crescente na pesquisa psicodélica: a negligência histórica das diferenças de gênero nos ensaios clínicos. Em texto publicado na coluna Virada Psicodélica, o jornalista Marcelo Leite chamou atenção para como mulheres continuam sub-representadas ou inadequadamente analisadas em muitos estudos com psicodélicos. Questões como ciclo menstrual, menopausa, uso de anticoncepcionais hormonais e flutuações endócrinas frequentemente são tratadas como “variáveis complicadoras”, quando talvez sejam fatores centrais para compreender eficácia terapêutica, segurança e dosagem ideal.

A nova pesquisa reforça justamente essa necessidade. Se hormônios sexuais influenciam a ação da psilocibina no cérebro, então protocolos terapêuticos que ignoram essas diferenças podem acabar produzindo resultados inconsistentes ou interpretações incompletas. Em um campo que frequentemente fala sobre individualização do cuidado e medicina personalizada, considerar as especificidades biológicas femininas deixa de ser detalhe metodológico e passa a ser uma questão científica fundamental. Considerando o clássico paradigma do set-setting-drug-matrix, o campo psicodélico não pode deixar de considerar os hormônios e o patriarcado, como elementos componentes do set (ou sujeito), setting (ou contexto) e da matrix (“o ambiente de onde vem o sujeito, e o ambiente para o qual o paciente retorna após uma sessão”, como descreveu Betty Eisner, idealizadora do conceito).


Comentários


spi85.png

CAMP - 2025

bottom of page