DOSE ÚNICA DE PSILOCIBINA PODE ALTERAR ATIVIDADE E ESTRUTURA CEREBRAL HUMANA
- Iago Lôbo

- 12 de mai.
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Uma única dose de psilocibina pode provocar mudanças duradouras tanto na atividade quanto na anatomia cerebral. Essa é a principal conclusão de um novo estudo, publicado em 05 de Maio na revista científica Nature Communications, conduzido por pesquisadores do Imperial College London e liderado pelo neurocientista Robin Carhart-Harris, um dos nomes mais influentes da ciência psicodélica contemporânea.
A pesquisa acompanhou 28 voluntários saudáveis que nunca haviam usado psicodélicos anteriormente. Os participantes receberam inicialmente uma dose quase inativa de psilocibina (1 mg) e, um mês depois, uma dose alta de 25 mg. Durante o experimento, os cientistas utilizaram EEG e diferentes técnicas de ressonância magnética para monitorar o cérebro antes, durante e após a experiência psicodélica.
Os resultados mostraram um aumento significativo da chamada “entropia cerebral” nas horas seguintes ao uso da psilocibina. Em termos simples, isso significa que o cérebro passou a operar de maneira menos rígida e mais flexível, com padrões de atividade neural mais diversos e menos previsíveis. Segundo os pesquisadores, quanto maior foi esse aumento de entropia, maior também foi o nível de “insight psicológico” relatado pelos participantes no dia seguinte, e possivelmente também associado a melhorias subjetivas de bem-estar um mês depois.
Para Robin Carhart-Harris, os resultados reforçam uma das principais hipóteses de sua linha de pesquisa: a de que psicodélicos ajudam o cérebro a sair de padrões mentais excessivamente cristalizados. Em entrevista repercutida para o jornal britânico The Guardian, o pesquisador afirmou que a psilocibina parece “afrouxar padrões estereotipados de atividade cerebral”, permitindo revisar formas rígidas de pensamento. Em outra declaração, ele lembrou que o termo “psicodélico” significa literalmente “manifestar a mente”.
Mas talvez o dado mais surpreendente do estudo tenha vindo das análises anatômicas. Um mês após a experiência, os exames identificaram alterações estruturais em feixes de substância branca conectando regiões pré-frontais e subcorticais do cérebro. Os pesquisadores observaram uma redução na difusão de água nesses circuitos neurais, enquanto um marcador que pode indicar maior integridade ou reorganização das conexões cerebrais. Curiosamente, os autores destacam que o envelhecimento e algumas doenças neurodegenerativas costumam apresentar o efeito oposto.
Embora os cientistas enfatizem que os achados ainda são preliminares e não provam causalidade terapêutica direta, o trabalho fortalece a ideia de que os psicodélicos podem promover processos de neuroplasticidade em humanos (algo até então mais consistentemente observado em modelos animais). Mais do que apenas produzir alterações subjetivas temporárias, a pesquisa sugere que uma única experiência psicodélica pode deixar marcas mensuráveis no cérebro humano por semanas.



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