PSILOCIBINA SUPERA ADESIVO DE NICOTINA NO TRATAMENTO DO TABAGISMO, APONTA NOVA PESQUISA
- Iago Lôbo

- 24 de mar.
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Atualizado: 26 de mar.

O recente ensaio clínico publicado no JAMA Network Open reacende, com dados comparativos robustos, o debate sobre o potencial terapêutico dos psicodélicos no tratamento da dependência de nicotina. Ao colocar lado a lado a psilocibina e o tradicional adesivo de nicotina, o estudo oferece um raro vislumbre direto entre um paradigma emergente e uma das abordagens padrão no campo do tabagismo.
O desenho da pesquisa segue o modelo de ensaio clínico randomizado, ainda que em caráter piloto. Participaram adultos fumantes com histórico de tentativas prévias de cessação, divididos em dois grupos: um recebeu uma dose única de psilocibina em contexto terapêutico supervisionado, enquanto o outro utilizou adesivos de nicotina por várias semanas. Importante notar que ambos os grupos foram acompanhados por um protocolo estruturado de terapia cognitivo-comportamental (TCC).
Os resultados quantitativos reforçam a diferença entre as abordagens. Ao final do período de acompanhamento de seis meses, cerca de 28% dos participantes no grupo da psilocibina permaneceram abstinentes, em comparação com aproximadamente 8% no grupo que utilizou adesivos de nicotina. Além disso, o grupo da psilocibina apresentou uma redução significativamente maior no número médio de cigarros consumidos por dia entre aqueles que não alcançaram abstinência completa. Esses dados indicam não apenas uma maior probabilidade de cessação sustentada, mas também um impacto mais amplo na diminuição do comportamento de fumar. Os achados são particularmente relevantes quando considerados à luz das limitações das terapias atuais, que frequentemente apresentam altas taxas de recaída mesmo quando combinadas com suporte comportamental.
Do ponto de vista dos mecanismos de ação, as intervenções também são contrastantes: enquanto os adesivos de nicotina operam por substituição, fornecendo doses controladas da substância para mitigar sintomas de abstinência, a psilocibina atua em sistemas serotoninérgicos, especialmente por meio da ativação do receptor 5-HT2A. Essa ação parece facilitar mudanças profundas na percepção, cognição e processamento emocional, potencialmente permitindo que o indivíduo reestruture sua relação com o hábito de fumar. Em vez de suprimir a fissura diretamente, a substância pode promover uma reconfiguração mais ampla dos padrões comportamentais associados à dependência.
Esse aspecto qualitativo da experiência psicodélica é frequentemente destacado em estudos anteriores. Pesquisas abertas já haviam sugerido taxas de abstinência surpreendentemente altas em longo prazo quando a psilocibina é administrada em conjunto com psicoterapia estruturada. O novo estudo avança nesse campo ao introduzir um grupo controle ativo — algo ainda relativamente raro na literatura psicodélica — reforçando a credibilidade dos achados.



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