POR QUE A NATUREZA PRODUZ SUBSTÂNCIAS PSICODÉLICAS? NOVA PESQUISA PROPÕE UMA EXPLICAÇÃO EVOLUTIVA
- Iago Lôbo

- 8 de jul.
- 3 min de leitura

Por milhares de anos, seres humanos utilizaram plantas, cogumelos e outras espécies que produzem compostos psicodélicos, mas uma pergunta intrigante permanece sem resposta: por que esses organismos evoluíram a capacidade de sintetizar moléculas capazes de alterar profundamente a percepção, a cognição e o comportamento dos animais? Um novo artigo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) propõe uma resposta inovadora: os psicodélicos naturais talvez não tenham surgido "para fazer humanos viajarem", mas como ferramentas ecológicas que aumentam as chances de sobrevivência dos organismos que os produzem.
Os autores destacam um fenômeno conhecido como evolução convergente, já discutida anteriormente aqui neste blog, quando pesquisadores descobriram que existem pelo menos duas vias de biossintetização da psilocibina em fungos. Compostos psicodélicos como psilocibina, DMT, mescalina, ibotenato e muscimol aparecem em grupos extremamente distintos da árvore da vida — incluindo plantas, fungos e até alguns animais — que evoluíram de forma independente ao longo de milhões de anos. Essa repetição sugere que essas moléculas oferecem vantagens adaptativas importantes, e não representam simples "acidentes" metabólicos. É o caso também da cafeína, presente não só no café, mas também no mate, no cacau, no guaraná e outras plantas.
Segundo a hipótese apresentada, essas substâncias funcionariam como mediadoras das interações ecológicas. Ao modificar o sistema nervoso de insetos, mamíferos ou outros consumidores, os compostos poderiam desencorajar a herbivoria, reduzir a predação, dificultar infecções por parasitas ou mesmo influenciar relações simbióticas entre espécies. Em outras palavras, em vez de servirem exclusivamente como mecanismos de defesa química, os psicodélicos poderiam atuar como ferramentas sofisticadas de comunicação e manipulação comportamental no ambiente natural.
A proposta apresentada pela pesquisa também encontra respaldo em publicações anteriores. Numa revisão publicada em 2023 sobre a ecologia da psilocibina, os autores reúnem diferentes evidências de que esse composto provavelmente desempenha funções adaptativas importantes para os fungos. Entre elas, estão a evolução convergente e a transferência horizontal dos genes responsáveis pela produção de psilocibina, indicando que essa capacidade foi favorecida pela seleção natural, além da associação entre fungos produtores de psilocibina e ambientes com baixa disponibilidade de nitrogênio. A revisão também destaca que a psilocina (molécula derivada da metabolização da psilocibina) possui propriedades químicas singulares e elevada afinidade por receptores de serotonina, um sistema de sinalização presente em diversos grupos de animais. Embora ainda não exista uma demonstração experimental definitiva de sua função ecológica, os autores defendem que essas evidências fortalecem a hipótese de que os chamados “psilóides” (grupo de alcalóides e triptaminas encontrados em cogumelos mágicos) evoluíram para modular interações entre fungos e outros organismos, e não apenas como subprodutos do metabolismo.
Outro aspecto interessante discutido pelos pesquisadores é que muitos desses compostos interagem com alvos moleculares extremamente antigos e conservados na evolução, especialmente receptores de serotonina. Esses sistemas de sinalização estão presentes em uma enorme diversidade de organismos, o que significa que pequenas modificações químicas podem produzir efeitos comportamentais relevantes em diferentes espécies. Assim, a ação psicodélica observada em humanos pode ser apenas um reflexo de mecanismos ecológicos que surgiram muito antes da nossa própria espécie existir.
Os autores também argumentam que compreender a função ecológica dessas moléculas pode abrir uma nova frente de pesquisa. Em vez de investigar apenas seus efeitos terapêuticos em humanos, cientistas podem explorar como esses compostos moldam redes ecológicas, influenciam a evolução de plantas e fungos e participam das complexas relações entre organismos em diferentes ecossistemas. Se essa visão estiver correta, a extraordinária capacidade dessas substâncias de alterar a consciência humana pode representar apenas um efeito colateral de uma função muito mais antiga: ajudar diferentes espécies a sobreviver e interagir em um mundo repleto de competidores, predadores e parceiros ecológicos.
Será que podemos entender que as plantas e os fungos também possuem uma espécie de inconsciente coletivo próprio? Ou será que também eles fazem parte do nosso inconsciente coletivo e seus efeitos psicodélicos em nós refletem a nossa parte em comum com o resto da Natureza?



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