IMORTALIDADE PSICODÉLICA: AVANÇO CIENTÍFICO OU ENTRETENIMENTO DE MILIONÁRIO?
- Iago Lôbo

- há 4 dias
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Já abordamos aqui nesta coluna as pesquisas que exploram os potenciais “anti envelhecimento” das substâncias psicodélicas: pesquisas já demonstraram que a psilocibina foi capaz de prolongar a vida útil celular e melhorar a sobrevivência de camundongos idosos; uma pesquisa coordenada pelo neurocientista brasileiro Stevens Rehen, também já demonstrou que o LSD prolongaria a vida de um tipo de verme. As conclusões não são necessariamente extensíveis aos seres humanos, uma vez que testadas ainda em modelos celulares e animais. O multimilionário Bryan Johnson, porém, passa a defender a psilocibina como parte do seu protocolo anti-envelhecimento, transmitindo ao vivo suas experiências com cogumelos e com 5-MeO-DMT. Será que esse tipo de experimento (e de conteúdo midiático) contribui realmente com a ciência psicodélica e com modelos seguros de uso dos psicodélicos?
Embora possamos falar em uma literatura emergente, ainda não existe evidência clínica (e muito menos consenso científico) que fundamente os tipos de afirmação que Johnson vem fazendo. Em 2025, o empresário e biohacker começou a considerar os cogumelos mágicos uma “terapia da longevidade”, dando início também às suas experimentações com a substância, e com a transmissão em live da experiência para milhares de espectadores. Os psicodélicos passaram a ser considerados no seu longo protocolo em busca da imortalidade, ao lado de outros tratamentos sem comprovação científica (como transfusões de sangue regulares do seu filho de 17 anos). Johnson estava sendo monitorado durante as experiências com cogumelos: por equipamentos mapeando mais 200 biomarcadores (motivo que ele considera ter sido “o experimento psicodélico mais quantificado já realizado”), e também por milhares de pessoas que assistiam a transmissão online da sua viagem psicodélica (atualmente, o vídeo de 2h40 do streaming da experiência foi assistido mais de 840 mil vezes).
Sua rotina de atividade física, tratamentos genéticos e experimentais, e mais de 100 suplementos diários custam em torno de 2 milhões de dólares anuais, e foram exibidos no recente documentário da Netflix “O homem que quer viver para sempre”. Fica nítido no filme como sua busca por retardar e reverter o envelhecimento passa pela busca da “otimização”, ou da melhora de performance cognitiva e fisiológica, parte de uma lógica de biomedicalização da vida, muito comum dentro da comunidade de biohackers, que não necessariamente fomenta uma maior saúde (muito menos, neste caso, se falarmos em saúde pública ou coletiva).
Mais recentemente, em março de 2026, Johnson resolveu dar mais um passo nas suas experiências com psicodélicos e testou o 5-MeO-DMT (mais uma vez, acompanhado de equipe de filmagem e em transmissão online). O protocolo utilizado (só posteriormente assumido e tornado público pelo Instituto Enfold sob o nome de “Protocolo Leckie”) consistiu na ingestão de um total de 27mg de 5-MeO-DMT distribuídos em duas vias diferentes de administração: 18mg vaporizado, mais 9mg intramuscular. O protocolo inova tanto na dupla administração, quanto na alta dosagem: enquanto pesquisas de ensaio clínico com 5-MeO-DMT costumam administrar doses entre 6 e 18mg, mesmo em usos naturalísticos ou fora de contextos clínicos, são raros os relatos de dosagens tão altas (embora a pesquisa de Christopher Timmerman tenha identificado usos de até 28,5mg). Sasha Shulgin, talvez o maior químico psicodélico da história, considera que doses acima de 20mg não são recomendadas, e define a dosagem ótima em torno de 10mg.
Em termos farmacológicos, o 5-metoxi-N,N-dimetiltriptamina (ou 5-MeO-DMT) atua como um agonista não seletivo de receptores de serotonina, com maior afinidade com o receptor 5-HT1A do que com o 5-HT2A. Essas características costumam ser usadas para explicar a fenomenologia da experiência psicodélica com 5-MeO-DMT, comumente marcada por uma rápida dissolução do ego, e baixos efeitos visuais comparados a outros psicodélicos.A dupla administração da substâncias por vias diferentes produzem um novo tipo de efeito, diferente do que seria produzido somente por via vaporizada ou por via intramuscular: enquanto o 5-MeO-DMT vaporizado produz um efeito quase que imediato (em torno de 5 a 7 segundos para fazer efeito), produzindo uma rápida dissolução do ego e entrega corporal, a aplicação intramuscular faz efeito em 3 a 4 minutos, estendendo a duração da experiência e permitindo um possível maior engajamento com ela (e também possível extensão dos efeitos terapêuticos, especulam alguns).
Embora seja interessante acompanhar novos modelos de administração de substâncias psicodélicas, bem como sua exploração de novas funcionalidades terapêuticas, não é tão certo que os experimentos da Johnson contribuem para um cenário de avanço da ciência psicodélica e exploração segura dos limites de uso dessas substâncias. Principalmente quando percebemos que a experiência é midiatizada, os (supostos) resultados são publicizados na sua rede social sem muito rigor científico, e (talvez o mais importante) muito do processo de preparação e de integração da experiência não é discutido com seu público, bem como qualquer reflexividade sobre outros fatores presentes numa vida milionária que podem influenciar um experimento como este.
Como afirmou Ryan Khan no Psychedelic Alpha, “apresentar uma intervenção desse tipo em formato de transmissão ao vivo, especialmente quando inserida em uma narrativa performática, corre o risco de simplificar um processo complexo, profundamente subjetivo e multifásico, reduzindo-o a uma representação simplificada”. Em tempos em que milionários passam a ser rapidamente interpretados como gênios ou visionários, ou até mesmo como estrelas pop, certamente não faltaram influenciados pelo ato de Johnson, já convencidos dos potenciais terapêuticos e imortalizantes dos psicodélicos. Para esse perfil de público, sem acesso ao conhecimento e ao suporte fornecido a Johnson, a superficialidade das suas transmissões banaliza a experiência psicodélica, e contribui para possíveis usos inseguros e insuficientemente assistidos.
O campo psicodélico já reconhece que as expectativas do sujeito influenciam em grande parte a forma como se dará experiência psicodélica e como ela será atravessada por este sujeito. Os experimentos de Johnson poderiam estar fortalecendo em milhares de aspirantes a psiconautas a lógica da otimização, onde mais é sempre melhor, em contraste à lógica terapêutica ou da redução da danos, onde sujeito, contexto e substâncias precisam ser considerados para a construção de uma viagem psicodélica segura e com riscos reduzidos. Antes já falamos de um “Efeito Pollan” (em referência à Michael Pollan, autor do best-seller “Como mudar sua mente”, de 2018), que considerava como que as grandes narrativas jornalísticas e midiáticas (e seus sensacionalismos) poderiam estar influenciando os resultados de pesquisa de ensaio clínico com psicodélicos, através do fortalecimento de expectativas específicas nos voluntários de pesquisa. Precisaremos passar a considerar também o efeito de influencers e milionários de grande alcance midiático, e atentar para um Efeito Trump, um Efeito Rogan, um Efeito Johnson… e sabe se lá mais quantos homens poderosos que pularão critérios de segurança e responsabilidade social para despontar como vanguardistas inovadores, sem considerar o efeito de suas ações em pessoas que os acompanha, mas certamente não têm as mesmas condições de vida.




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