NOVO ANTIDEPRESSIVO INTRANASAL DE MEBUFOTENINA: A CORRIDA FARMACOLÓGICA DO 5-MEO-DMT

Uma nova pesquisa clínica publicada em 26 de outubro de 2026 na revista JAMA trouxe resultados promissores para o desenvolvimento de terapias psicodélicas contra a depressão resistente ao tratamento. O estudo investigou os efeitos de uma única administração intranasal de mebufotenina, também conhecida como 5-MeO-DMT, e identificou reduções significativas dos sintomas depressivos que se mantiveram durante o acompanhamento de oito semanas. Os resultados foram acompanhados por um editorial da própria revista, que discute a possibilidade de uma “mudança de paradigma” no tratamento do transtorno depressivo maior.
O ensaio clínico de fase 2b, conduzido por David Feifel e colaboradores, incluiu 193 participantes adultos com depressão resistente ao tratamento, definida pela ausência de resposta adequada a pelo menos dois e até cinco tratamentos antidepressivos no episódio atual. Os participantes receberam uma única dose de spray nasal de benzoato de mebufotenina, nas dosagens de 8 mg ou 12 mg, ou uma dose comparadora de 0,3 mg, considerada subperceptiva. O tratamento foi acompanhado de suporte psicológico, e a pesquisa foi realizada em 38 centros na Austrália, Europa e Estados Unidos.
Os resultados foram avaliados por meio da Escala de Avaliação da Depressão de Montgomery-Åsberg (MADRS): após 29 dias, o grupo que recebeu 12 mg apresentou uma redução média de 11,1 pontos na escala, em comparação com 5,5 pontos no grupo de baixa dose, uma diferença considerada estatisticamente significativa. A dose de 8 mg também demonstrou benefício significativo, com redução média de 12,5 pontos. Os efeitos favoráveis foram observados desde o primeiro dia após a administração e permaneceram detectáveis até o 57º dia de acompanhamento (Feifel et al., 2026).
As taxas de resposta clínica no 29º dia foram de 34% no grupo de 12 mg e 35% no grupo de 8 mg, contra 12% no grupo comparador. Para a remissão dos sintomas, as proporções foram de 18%, 26% e 8%, respectivamente. Embora esses dados indiquem potencial terapêutico, os resultados precisam ser interpretados à luz das limitações do estudo, incluindo o tamanho da amostra, a possibilidade de os participantes identificarem qual dose receberam e a necessidade de pesquisas adicionais para confirmar a eficácia e a segurança do tratamento.
Outro achado relevante diz respeito à duração dos efeitos agudos e ao tempo de monitoramento clínico. A mebufotenina produz uma experiência psicodélica relativamente breve, e 78% dos participantes que receberam 12 mg e 85% daqueles que receberam 8 mg foram considerados aptos para alta em até duas horas. Os eventos adversos foram relatados por 85% e 76% desses grupos, respectivamente, e por 73% do grupo comparador; 99,7% dos eventos registrados foram classificados como leves ou moderados. Portanto, apesar do perfil de tolerabilidade descrito pelos pesquisadores, a ocorrência frequente de eventos adversos reforça a importância do acompanhamento clínico e da avaliação de riscos em estudos futuros.
Em reportagem publicada no Medscape, Megan Brooks também destacou o potencial do spray nasal para ampliar a viabilidade prática das terapias psicodélicas. O formato intranasal e a recuperação relativamente rápida podem reduzir a necessidade de longos períodos de acompanhamento presencial, uma das barreiras logísticas associadas a substâncias como a psilocibina. Essa possibilidade também é discutida no editorial de Chittaranjan Andrade no JAMA, que chama a atenção para o desenvolvimento de formulações capazes de manter efeitos antidepressivos sem exigir o manejo de experiências psicodélicas prolongadas e intensas.
A novidade científica também se conecta diretamente às transformações econômicas recentes do setor. Como discutimos anteriormente aqui no CAMP, a aquisição da AtaiBeckley pela farmacêutica Eli Lilly, em uma negociação que pode alcançar US$ 3,8 bilhões, representa um marco na aproximação entre a indústria farmacêutica tradicional e o mercado de terapias psicodélicas. Um dos principais ativos envolvidos nessa estratégia é justamente o BPL-003, formulação intranasal de 5-MeO-DMT desenvolvida para o tratamento da depressão resistente.
Assim, a publicação no JAMA reforça a relevância clínica e comercial de uma estratégia que procura combinar a ação antidepressiva dos psicodélicos com formulações de administração rápida e menor duração dos efeitos agudos. Esse movimento, contudo, também convida a uma reflexão crítica sobre os rumos do Renascimento Psicodélico. À medida que o desenvolvimento desses medicamentos avança, ganham força modelos terapêuticos que valorizam a padronização farmacológica, a redução de custos operacionais e a viabilidade de comercialização. Permanece, portanto, a questão de como integrar esses avanços científicos à complexidade das experiências psicodélicas, às dimensões psicológicas e relacionais do cuidado e à garantia de acesso equitativo às futuras terapias.




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