ALUCINAÇÃO LILIPUTIANA: O COGUMELO QUE FAZ VOCÊ ENXERGAR MINI PESSOAS
- Iago Lôbo

- há 2 horas
- 4 min de leitura

Paul Stamets é um consagrado micologista, conhecido pelo seu ativismo em relação aos fungos e seus múltiplos usos medicinais e ecológicos. Autodidata, reconhecido como um dos maiores especialistas em cogumelos do mundo, Stamets decidiu dedicar sua vida aos estudos dos cogumelos ao perceber que tinha se curado da gagueira que o acompanhava desde a infância depois de, desavisadamente, ingerir uma dose altíssima de cogumelos mágicos na primeira vez que decidiu experimentá-los. Depois disso, Stamets escreveu diversos livros sobre cultivo e identificação de cogumelos, e detém diversas patentes de inovações tecnológicas fúngicas: de suplementos nootrópicos, a biopesticidas, passando por micorremediadores de solos contaminados.
No início de dezembro de 2025, Stamets chamou atenção do campo micológico e psicodélico para um cogumelo até então pouco conhecido - pelo menos, pelo mundo ocidental. Em uma publicação nas suas redes sociais, o micólogo divulgou uma matéria escrita por Colin Domnauer, estudante de doutorado no Museu de História Nacional de Utah, que decidiu investigar os mecanismos responsáveis pelos efeitos do cogumelo Lanmaoa asiatica - mais especificamente, seu efeito de alucinações liliputianas, ou seja, sua capacidade de fazer com que o usuário veja minúsculas pessoas realistas interagindo no ambiente ao seu redor.
O termo faz referência Liliput, ilha fictícia do livro “As Viagens de Gulliver”, (1726) de Jonathan Swift, habitada por minúsculos seres humanos, com média de 15cm de altura. Alucinações do tipo liliputianas não são de todo desconhecidas, e em alguns casos já foram descritas a mais de 2 séculos: podem acontecer em condições neurológicas e psiquiátricas que envolvem distorções perceptuais visuais, como a Síndrome de Alice no País das Maravilhas, na Síndrome de Charles Bonnet, em quadros psicóticos e até em síndrome de abstinência por álcool.
No caso dos efeitos provocados pela ingestão do L. asiatica, a história de relatos pode ser muito mais antiga: segundo Domnauer, um importante texto taoísta do século III d.C. cita um “cogumelo do espírito da carne” que permitiria “ver uma pequena pessoa” e “alcançar a transcendência imediatamente”. A China segue tendo uma relação bem próxima com os cogumelos: tipos medicinas e comestíveis são facilmente encontrados em feiras populares - bem como o próprio L. asiatica, ou “jian shou qing”. Em 2023 foi noticiado, por exemplo, que Janet Yellen, então Secretária do Tesouro dos EUA, havia comido um prato de cogumelos mágicos num restaurante em visita diplomática à China: tratava-se do próprio “jian shou qing”, e Janet fez questão de ressaltar que não sentiu qualquer efeito psicoativo, que são eliminado conforme tempo de preparo dos cogumelos.
“Jian shou qing”, como é mais conhecido na província chinesa de Yunnan, pode ser traduzido para algo como “fica azul nas mãos”, fazendo referência ao seu rápido processo de oxidação, que transforma seu tom amarelado num azul forte em poucos segundos, quando cortado. Os efeitos da sua ingestão também não são desconhecidos para os chineses de Yunnan: pessoas relatam ver “xiao ren ren”, ou “pessoinhas”. Em outras localidades da ásia também se encontram relatos de cogumelos com efeitos semelhantes: em comunidades indígenas das Filipinas, a ingestão do cogumelo localmente conhecido como “sedesdem” gera a visão do que chamam dos “ansisit”; e na Papua Nova Guiné, o cogumelo “nonda” produz os mesmos efeitos. O uso do cogumelo por essas comunidades é feito cozido, como alimento, e não pelas suas propriedades psicoativas: os efeitos da ingestão do cogumelo cru, como delírio e tontura, podem ter durações prolongadas por 12 a 24h, e até levar a internação hospitalar - no Hospital de Yunnan, 96% dos pacientes que internam por intoxicação pelo cogumelo apresentam algum tipo de alucinações liliputianas.
Domnauer, através do trabalho conjunto com guias locais, conseguiu coletar amostras de “sedesdem” e realizou o primeiro sequenciamento genético da espécie em 2024, confirmando se tratar do Lanmaoa asiatica, que também só conquistou sua identidade taxonômica muito recentemente, em 2014. Seu sequenciamento revelou um mistério, porém: os L. asiatica são cogumelos do tipo boleto, ou seja, com parentesco mais próximo de cogumelos comestíveis (como o porcino), do que de outros cogumelos reconhecidamente “mágicos”, ou psicodélicos. Teriam, então, as alucinações liliputianas uma base cultural ou mitológica, e não neuroquímica? Ou trata-se de compostos químicos de efeitos psicoativos ainda não mapeados pela ciência contemporânea?
A alucinação liliputiana de fato parece um fenômeno retirado direto de mitos ou de contos de fada: não à toa, a própria literatura médica faz referência a obras como “Alice no País das Maravilhas” e “As Viagens de Gulliver”. Também não é difícil pensar na relação mítica dos cogumelos com gnomos e duendes, e até lembrar de “Efeitos Colaterais”, série de animação da HBO que narra a história de um micólogo que descobre um cogumelo capaz de curar qualquer doença, e sua luta contra a indústria farmacêutica que deseja controlar esse potencial terapêutico: os personagens da série, ao ingerir o cogumelo, são visitados por dezenas de minúsculos humanóides, junto com outros tipos de visões. Como psicólogo junguiano, não tenho como não relacionar também à idéia de “pequenas pessoas”, que o pai da Psicologia Profunda, C. G. Jung para retratar os complexos psicológicos: para ele, seriam como seres que nos habitam, fragmentos de personalidade com algum grau de autonomia, que poderiam ser representados simbolicamente por seres fantásticos como fadas, gnomos, etc.
A consistência de relatos semelhantes em diferentes culturas e épocas, porém, além da descoberta genética que identifica o “jian shou qing” como da mesma espécie do “sedesdem”, parece indicar a existência de um composto químico responsável por estes efeitos - não se tratando, portanto, de simples invenções culturais ou coincidências. As atuais pesquisas envolvendo o L. asiatica pode levar ao descobrimento de novas moléculas bioativas específicas envolvidas no finômeno liliputiano, bem como da descoberta de vias cerebrais relacionadas ao efeito.
Domnauer encerra seu texto com uma conclusão digna de alguém que não esconde sua paixão pela micologia e suas costuras com outros campos do conhecimento: “Embora muitas perguntas permaneçam sem resposta, uma coisa é certa: a Lanmaoa asiatica nos lembra que o mundo dos cogumelos, mesmo aqueles encontrados em mercados e pratos de jantar, esconde mistérios e maravilhas que ainda nem imaginamos. Em algum lugar entre o folclore tradicional e a biologia moderna, entre o solo da floresta selvagem e o laboratório científico estéril, reside uma história que ainda está se desenrolando, uma história que pode começar com algo aparentemente tão inofensivo quanto uma tigela de sopa de cogumelos”.


