NOVIDADES PSILOCIBÍNICAS
- Iago Lôbo

- 11 de fev.
- 4 min de leitura

Se o LSD foi a molécula chave para o nascimento da Ciência Psicodélica na década de 1950, há quem diga que a psilocibina é a molécula do Renascimento Psicodélico. Esquentando os motores para os encontros deste mês do módulo do CAMP.educ sobre “Psilocibina e psicoterapia assistida por Psilocibina” (dias 28/02 e 01/03/26), decidimos trazer algumas novidades desta molécula no atual cenário psicodélico.Vale lembrar que no início da Ciência Psicodélica, a psilocibina ainda não era conhecida. Foi somente em 1955, quando os efeitos do LSD já eram investigados a mais de 10 anos, que Gordon Wasson conheceu os cogumelos mágicos, a partir de Maria Sabina, no México, e os apresentou a Albert Hofmann. O químico responsável pela síntese do LSD, se tornou então o primeiro a isolar a psilocibina dos cogumelos em 1958, e o primeiro a sintetizá-la em 1959.
A partir do seu uso social e contracultural, e das consequências das políticas e propagandas proibicionistas, o LSD passou a carregar forte marca negativa na sociedade, e os psicodélicos passaram a ser mal vistos de forma geral dentro das universidade, a partir da década de 1970. No Renascimento Psicodélico, a partir dos anos 1990 e 2000, retomam-se as pesquisas a partir do DMT e da ayahuasca, mas é a psilocibina que se consolida como molécula de maior interesse entre os cientistas - mas não só entre eles: hoje, a psilocibina é a molécula psicodélica com mais estudos em andamentos registrados na ClinicalTrials.gov; e um levantamento da RAND apontou que foi a psilocibina foi a substância psicodélica mais consumida em microdosagens no ano passado nos EUA, com um total de 11 milhões de adultos usuários.
Em termos de políticas regulatórias, já trouxemos aqui neste blog um panorama geral da psilocibina no mundo: somente em 2025, Nova Zelândia, República Tcheca e Alemanha aprovaram regulações específicas para o uso terapêutico da molécula. Na Nova Zelândia, um primeiro psiquiatra foi autorizada a prescrever psilocibina em casos de depressão resistente ao tratamento; na República Tcheca foi aprovado o uso da psilocibina sintética em hospitais gerais e públicos prescritos por médicos autorizados; e a Alemanha se tornou o primeiro país a permitir o acesso legal à psilocibina antes mesmo de sua aprovação regulatória (o que foi chamado de “uso compassivo” ou “programa de acesso expandido”).
Nos EUA, desde 2020 mudanças regulatórias vêm autorizando o uso de cogumelos ou da psilocibina em diferentes contextos. Depois dos estados Oregon, Colorado e Novo México, agora chegou a vez de Nova Jersey, Nova Hampshire e Iowa, com projetos de lei específicos de regulamentação da psilocibina: em 20 de janeiro de 2026, o governador de Nova Jersey aprovou a criação do Programa Piloto de Acesso e Terapia de Saúde Mental com Psilocibina; em Nova Hampshire, dois projetos de lei em andamento (HB 1796 e HB 1809) propõem programas de psilocibina medicinal a ser administrados pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos do estado; e em Iowa, em 22 de Janeiro de 2026 foi apresentado um projeto de lei (HF 2085) que propõe a criação de um conselho de licenciamento para analisar as solicitações de cultivadores de psilocibina e profissionais de saúde qualificados.
A atualização de normas e legislações em torno dos cogumelos e da psilocibina em vários países do mundo é um reflexo do acúmulo de evidências sobre os potenciais terapêuticos dessa substância. Desde 2018 que recebeu da FDA, nos EUA, a “designação de terapia revolucionária” (“breakthrough therapy designation”, que, na prática, reconhece o grande potencial terapêutico de um novo tratamento em estudos, e acelera as etapas seguintes de regulamentação do novo medicamento) para a depressão resistente ao tratamento, outros estudos já descreveram potenciais terapêuticas para diversas outras condições de saúde, como transtorno de ansiedade grave induzido por álcool, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e sofrimento no fim da vida.
Estudos mais recentes vêm abrindo novas trilhas de investigação que vão além do tratamento de transtornos mentais e exploram a complexidade da conexão entre corpo e psique (a velha dicotomia mente-cérebro, atualizada à luz dos psicodélicos). Recentemente, foram encontradas evidências de que a psilocibina melhora a resistência à insulina e a esteatose hepática em doenças metabólicas induzidas por dieta (apontando para potenciais terapêuticos no tratamento da obesidade e da diabetes); tem influência no comportamento social e inflamação de camundongos fêmeas, dependendo do contexto metabólico e de atividades físicas; e ampliaram a sobrevida de camundongos idosos (reforçando a hipótese de que psicodélicos poderiam reprogramar redes celulares complexas, influenciando processos de envelhecimento). Entre as pesquisas citadas, a maioria não usa os cogumelos in natura, mas sim a psilocibina isolada, ou sintetizada, e também versões “não-alucinógenas” da psilocibina - que dão continuidade às investigações sobre a relação entre os efeitos visionários dos psicodélicos e seus benefícios terapêuticos.
A Ciência Psicodélica Brasileira, apesar de historicamente fortalecida pelas pesquisas com ayahuasca, também tem avançado nas investigações com cogumelos e com psilocibina. Em 2023, a Unifesp começou o recrutamento de voluntários para o tratamento do tabagismo, e, em 2025, o Instituto Alma Viva conseguiu autorização inédita da Anvisa para importar 18kg de cogumelos para uso em estudos voltados ao tratamento da ansiedade existencial relacionada à morte em pacientes oncológicos, e da depressão maior.
Continuem acompanhando nosso blog para mais novidades psicodélicas!


