SEMINÁRIO DA JUREMA E A CONSTRUÇÃO DE DIÁLOGOS ENTRE CIÊNCIA INDÍGENA E CIÊNCIA ACADÊMICA
- Iago Lôbo

- há 3 dias
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No final de Maio de 2025, entre os dias 21 e 24, aconteceu no Território Indígena Truká, em Orocó-PE, o I Seminário de Medicinas Ancestrais - Jurema: Ciências, Cuidados e Proteção () (1), organizado pelo Povo Truká, Teia Saci e UNIVASF (Universidade Federal do Vale do São Francisco). O II Seminário da Jurema acontecerá novamente no território Truká, entre os dias 23 e 26 de Maio de 2026, e as inscrições abrirão em breve. Faltando agora poucos meses para a sua segunda edição, decidimos retomar um pouco do debate que aconteceu no ano passado e seus efeitos na comunidade psicodélica brasileira.
Tive a oportunidade de participar como ouvinte da primeira edição do Seminário, acampado às margens do Rio Opará (no resto do Brasil, mais conhecido como Rio São Francisco). Voltei de lá para Salvador ainda sob efeito dos debates e falas potentes, na certeza de que me esforçaria para estar presente na segunda edição, afinal, tinha tempo que um evento sobre psicodélicos não me impactava tanto. Bom, ao menos eu fui achando que seria mais um evento sobre psicodélicos… A palavra “psicodélico” sequer foi usada nas falas do primeiro dia de evento. Palavras como “cultura”, “proteção” e “sagrado” descreviam melhor o tom dos posicionamentos e reivindicações. A Jurema era respeitada ali como pessoa de direito e como entidade viva, dotada de espírito.
O Seminário foi o primeiro evento organizado pela UNIVASF realizado em território indígena e discutiu a Jurema a partir de três eixos: nas palavras do Manifesto divulgado ao fim do evento, “diferentes ramas para chegar em seu trançado final”. Na rama das ciências, se promoveu o diálogo entre as diferentes “ciências da jurema”, “da dimensão molecular à dimensão cósmica”, com representantes indígenas, membros de comunidades juremeiras de terreiro e pesquisadores acadêmicos; na rama do cuidado, discutiu-se a importância da descolonização da saúde; e na rama da proteção, destacou-se o imperativo ético de proteger a Jurema de relações utilitárias ou apropriações indevidas.
O evento acontece num momento histórico de fortalecimento dos movimentos indígenas no Brasil e no mundo, na defesa dos territórios originários, e também de reivindicação de suas culturas e medicinas ancestrais. No campo psicodélico, esse debate se desdobra na necessidade de descolonização do fazer científico, de valorização dos saberes indígenas, e de construção de um diálogo entre ciência indígena e ciência acadêmica. “Foi um início tenso de diálogo entre povos originários e academia. Houve, porém, concordância sobre continuar conversando com base nos princípios comuns de cuidado e proteção”, comentou o jornalista Marcelo Leite, que cobriu o evento na sua coluna Virada Psicodélica, na Folha de São Paulo. As tensões originadas do enlace de diferentes ramas é perceptível recorrentemente nos eventos psicodélicos recentes: pude sentir essas tensões também no Expande Capão, principalmente nas falas de Daiara Tukano, Adana Omágua Kambeba e Jairo Lima, que reforçaram as dimensões cultural e espiritual do uso das plantas.
Todo o campo psicodélico se beneficia e aprende quando em relação com os saberes indígenas, e a ciência acadêmica atenta cada vez mais para isto, buscando se aproximar dessas culturas e garantir espaço para esse tipo de debate nos eventos científicos. No Seminário da Jurema, a força desta troca é potencializada por se dar em território indígena, com a condução e saber das lideranças locais. A centralidade do debate em torno da proteção da cultura índígena, das plantas relacionadas e da espiritualidade é outra característica que diferencia o Seminário da Jurema de outros eventos científicos psicodélicos, e o aproxima, de alguma forma, das Conferências Indígenas da Ayahuasca, que geram cartas abertas com o posicionamento dos participantes (neste caso, poucas exceções não-indígenas convidados) sobre o uso de plantas de poder e propõem modelos de regulação e proteção.
O Manifesto elaborado ao longo do Seminário da Jurema destaca a repressão e perseguição sofrida pelos povos juremeiros indígenas e afrodescendentes ao longo da história colonial brasileira, defende a Jurema enquanto sujeito de direito, convida a um exercício de contracolonizar modelos metodológicos e epistêmicos, e propõe um grupo de trabalho para desenvolver projetos de tombamento da Jurema Sagrada como patrimônio imaterial. Para quem estava presente, ou para quem lê o Manifesto na sua íntegra, entende que o Seminário faz parte do tipo de mobilização coletiva que já nasce com importância histórica. Como bem anunciou Neguinho Truká, liderança indígena, “Em 525 anos de história do país, nós nunca conseguimos fazer o que estamos fazendo hoje. Nunca. Não conseguimos. Então esses dias que estivemos aqui, com pautas ampliadas até tarde, com os discursos mais acirrados e alongados, nos trouxe este presente para todos nós. Nós temos que dar continuidade”, se referindo à união de grupos tão histórica e culturalmente heterogêneos em nome da proteção de uma planta sagrada.
Para Alexandre Franca Barreto, Professor Associado do Colegiado de Psicologia da UNIVASF, docente convidado do curso de pós-graduação da CAMP.educ e um dos mobilizadores do Seminário, o evento é “uma possibilidade de a gente tecer pontos de profundo respeito e de cooperação entre esses múltiplos saberes, na tentativa de rever essas relações, de uma maneira que não seja mais de usurpação, que não seja mais de domínio, mas de colaboração, de crescimento, de compartilhamento, de envolvimento com a vida, com o território”. Segundo o psicólogo, psicoterapeuta corporal, daimista e juremeiro - que conversou comigo diretamente da Aldeia Fulni-ô, em Águas Belas-PE, enquanto participava do I Seminário Entre Saberes e Curas - o Seminário pretende aprofundar ainda em dois pontos em 2026: as experiências exitosas em territórios indígenas relacionadas à Atenção Psicossocial e o Bem Viver; e a estruturação de um conselho, ou grupo de guardiões, a serem consultados em questões éticas e morais relacionadas às medicinas sagradas.
Voltei do Seminário da Jurema de 2025 com a sensação de obrigação de escrever sobre o que vivi ali, de compartilhar um pouco das crises pessoais e filosóficas que se reforçaram ali em mim. Levei quase um ano, para só agora escrever algo sobre o evento, na ilusão de que o texto teria o resultado das minhas elaborações sobre essas crises. Mas percebi que as crises são muito mais do que minhas e muito maiores do que eu. Ainda precisaremos de muita elaboração coletiva para avançarmos em direção a um campo psicodélico mais harmonioso, democrático, contra-colonial e pluriversal. Se te interessa por esta construção, fica o convite para o II Seminário da Jurema, no Território Truká, em Maio de 2026.


